letra ∞
uma estória da Ucrânia
Apanhámos o voo em Kiev directo para Portugal, íamos todos. Eu já lá tinha sido muito, mas mesmo muito, feliz e os meus pais sabiam das histórias que contei do tempo em que lá vivi. Não de todas. A única que sabia quase tudo era a minha irmã, não se guarda segredos às irmãs mais velhas. A minha avó também ia connosco, mas só sabia que eu tinha lá estado, há uns anos, numa coisa da universidade com nome de filósofo.
Os meus pais alugaram a “Casa do Mar” que dava perfeitamente para os cinco. Só pagámos taxas de turismo para quatro, vantagens!
Os anfitriões não falavam ucraniano, nem esperávamos que fosse diferente. O meu pai arranhava o inglês, era esforçado. A minha avó e a minha mãe não queriam saber, falavam alto e pausadamente, na esperança do milagre da comunicação. A minha irmã não falava, ou falava pouco. Já andava assim há um mês.
Eu tinha pedido para irmos a Cascais, queria mostrar-lhes a baía. Queria que vissem o mar verdadeiro. Aquele das ondas a rebentar nas rochas que eu lhes tinha descrito com o entusiasmo de quem se sente vivo.
A cada estrondo ficavam mais fascinados e emocionados. Inundados como as pedras. De alegria e de tristeza. De incompreensão e clarividência. E ali, num espaço intemporal entre o fim e o começo, lá me fizeram a vontade e me deixaram ficar, em pó. Era o último adeus, tal como eu tinha pedido.
(seguindo o conselho da Mónia Filipe pedi ao escritor convidado Fernando Mendes redigir este microconto. Obrigada Fernando - pela beleza das palavras e também pelo murro no estômago)



Que bonito!
Puxa, este Fernando tirou-me o tapete. Que boa colaboração 😉